O crescimento do feminismo no Brasil e entrevista com a escritora Rubermária Sperandio, do livro "Matrioskas"


(Rubermária Sperandio)

A quantidade de publicações de obras feministas e/ou escrita por mulheres está crescendo cada vez mais. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, não existe um sistema de pesquisa que separe por gênero autores de obras, mas basta entrar em uma livraria para ver que os livros feministas ou de ficção escrito por mulheres estão ocupando um espaço crescente nas prateleiras. E é claro que, se há um crescimento no volume de publicações, é porque a procura também aumentou.


Entre janeiro de 2014 e outubro de 2015, a busca pelo termo "feminismo" no Google aumentou 86,7% no Brasil. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha em abril de 2019, 38% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais se consideram feministas e 45% acreditam que o feminismo traz mais benefícios para as mulheres. Ainda de acordo com a pesquisa, as mulheres são 51,6% da população, 15% do congresso, 45,6% dos trabalhadores e 26% dos diretores de empresas.



O crescimento do interesse pelo tema revela o aumento do espaço ocupado pelas feministas. Esses dados comprovam o avanço do movimento feminista e da reivindicação de direitos das mulheres no Brasil. Com esse desenvolvimento, a busca por conhecimento sobre o movimento e sua história cresceu também, e automaticamente as obras feministas bombaram na Internet, nas livrarias, nos cinemas e na mídia em geral.

Essas obras feministas ajudam as mulheres a conhecerem mais sobre o movimento e se organizarem em redes de apoio para ajudar umas às outras, combater a violência e o preconceito e conquistar mais oportunidades na nossa sociedade, ainda machista e patriarcal. 

Pensando nesse panorama, decidi entrevistar uma autora feminista para incentivar o consumo de obras como as dela, que abordam esse movimento tão importante pra nossa luta por direitos e equidade. 

Assim, o blog Obras Feministas traz hoje uma entrevista com a escritora do livro “Matrioskas”, Rubermária Sperandio.


(Capa do livro "Matrioskas")
A escritora é formada em Comunicação Social e Mestre em Mídia, Política e Cultura pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente, ela trabalha com revisão e preparação de originais e textos acadêmicos e literários.

Sua obra “Matrioskas” foi lançada em março desse ano, pela editora Desdobra, e é um livro de poemas com temática feminista que fala sobre amor, nos faz pensar e é um chamado ao matriarcado. E para falar um pouco mais sobre a obra, entrevistei a escritora.


Obras Feministas: Como e quando você se descobriu escritora?
Rubermária Sperandio: Antes de falar de escrever, vou falar de ler. Sempre gostei muito de ler, desde criança. Na minha casa não tinha livros, mas meus pais valorizavam muito o saber, porém eles achavam que o lugar de adquiri-lo era na escola. Eles apoiavam a escola, os professores e todos o eventos relacionados. Quando aprendi a ler foi uma festa, a família inteira demonstrou muita alegria, ganhei um relógio. Então, eu percebi que aquilo era muito importante e eu lia as historias do livro de português (que era anual) em menos de um mês e adorava fazer redação. Comecei a escrever uns poemas na época que fazia a faculdade de letras (fiz só a metade, depois mudei para comunicação), mas tinha vergonha de mostrar ao professor. Um dia, mostrei para uma colega, ela me disse, “amiga, não gostei não, não tem nada a ver com os poemas que o professor leva para a aula, não mostra pra ele não”. Nunca mais escrevi poemas, mas ler já era uma paixão, eu descobria tantas coisas que ninguém ao meu redor podia me ensinar. Alguns anos depois, voltei a escrever, mas não mostrava para ninguém ia guardando numa pasta, eram desabafos, depois de um tempo jogava fora e assim foi durante muito tempo até eu vir morar no Rio em 2014. Morava perto da livraria Travessa em Botafogo, comecei a frequentá-la, a participar de um grupo de leitura de lá, fiquei sabendo de várias oficinas de escrita, comecei a fazer e a me animar. Percebi que podia me tornar uma escritora de literatura, investi, vendi meu carro, coloquei na poupança e fui gastando com literatura. Dai a pouco, comecei a escrever poesias contos, crônicas que me agradavam e já não me importava muito as opiniões dos outros.
- De onde surgiu o seu interesse e prazer em escrever sobre feminismo?
Rubermária Sperandio: Aqui no Rio, eu comecei a ver muitos livros sobre o assunto na Travessa, também fizemos leituras de escritoras feministas, justo no momento em que eu estava em crise em um relacionamento que eu considerava meu parceiro muito machista. Também estava todo mundo falando disto aqui, em todos os lugares. Comecei a ler cada vez mais sobre o assunto. A leitura foi me dando os alicerces para eu analisar e escrever o que acontecia comigo, me fortaleceu, me salvou. E aí eu me separei, foi muito dolorido, e comecei a escrever não só sobre a minha dor, mas sobre a dor também de outras mulheres. Vi que a dor delas poderia ser a minha. O poema “Alívio” em “Matrioskas” é um relato de uma amiga sobre um aborto que ela tinha feito. Ela deixou colocar no livro, mas, é claro, nunca vou dizer quem é a pessoa. Percebe como a arte pode ser mais real que a vida?
- Qual a importância do feminismo pra você?
Rubermária Sperandio: Descobrir a luta feminista foi uma redenção para mim. Descobri por intermédio das leituras, e aqui vou citar a já muito citada frase da Simone Beauvoir, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A mulher que eu tinha me tornado, a grande parte dela, não foi construção minha. Descobrir isto, que apesar de eu ser uma coisa, eu podia ser outra, foi fundamental para eu me tornar esta nova mulher que já sou, mas que não tem fim, é um eterno “tornar-se”. E isto me levou a ler o livro “A vida psíquica do poder”, da filósofa Judth Butler, uma teoria para a formação do sujeito, aí fui muito mais além, estou indo. Eu e umas amigas criamos, recentemente, um grupo de estudos feministas, a gente se encontra a cada 15 dias para debater a leitura. A leitura da vez é “A escrita de si mesmo”, outro da Butler.
- Agora um pouco mais sobre a sua obra “Matrioskas”, conte um pouco sobre o livro e a importância do conteúdo dele pra você.
Rubermária Sperandio: Eu estava escrevendo um livro de contos que trata de vários assuntos, inclusive feminismo. Eu estava trabalhando muito no livro, inclusive para não pensar nos últimos acontecimentos que reforçou a minha decisão de separação. Mas eu tinha que parar, descansar, e aí os pensamentos afloravam com força total e eu precisava jogar aquilo pra fora. Conhecia poucas pessoas no Rio, as pessoas não tem tempo para ouvir, eu também não queria falar muitas coisas para ninguém. Tinha a psicóloga, mas ela não podia me ouvir diariamente. Então, eu abri um bloco de notas no celular e comecei a escrever em forma de poemas o que eu estava sentindo. Não pensava em publicar, apesar de usar as sombras da poesia, em muitos casos, achava que estava me expondo demais, principalmente nas questões religiosas. Sim, falo de religião também, até porque, na minha concepção, esta imagem submissa da mulher é fruto de uma religiosidade que é base ideológica para o patriarcado. Enfim, um dia conheci o escritor João Pedro Roriz, ele dá oficinas de poesias, resolvi fazer mais a oficina dele. Marquei um encontro para combinarmos e levei um pouco do que tinha escrito. Ele ia ler e no outro encontro começaríamos a oficina. Quando voltei para começarmos, ele disse-me que não tinha que me dar oficina, eu já era poeta, e que eu tinha que publicar um livro. Aí começamos a trabalhar nesse sentido e como tínhamos que escolher um tema, qual era o mais presente? Tinha até um poema que chamava “Matrioskas”, o que dá nome ao livro.
- Pode nos contar como foi o processo de criação do “Matrioskas”?
Rubermária Sperandio: Eu e meu editor trabalhamos duro durante quatro meses. Muitos poemas tinham sido escritos há algum tempo e eu já não ficava tão satisfeita ao relê-los. Também tinha coisas que o João me questionava e, em muitos casos, eu revia. Teve poemas que eu mudei completamente, comecei a mexer, mexer e daí a pouco já era outra coisa, embora não mudando o assunto. Foi muito importante o encontro do conhecimento que eu tinha com o do João. Foi um trabalho muito frutífero, porque também foi afetuoso. Depois de pronto, o livro foi encaminhado para a Besourobox, editora com a qual ele tem uma parceria, e saiu com o selo Desdobra, que ele opera. Alguns dias depois, foi me enviado algumas capas para eu escolher. Eu já tinha em mente o que eu achava que devia ser a tradução do conteúdo do livro. Quando o Marco Cena me mandou esta capa eu adorei, ele tinha entendido perfeitamente o coração do livro. Depois, o resto foi com a editora.
- Por último, quero te pedir indicações de outras obras feministas! Pode ser livro, série ou filme.
Rubermária Sperandio: Eu li recentemente um livro que gostaria de ter lido quando comecei a ler sobre o feminismo. Acho que é uma ótima introdução pra quem está começando, “Uma breve história do feminismo no contexto euro-americano” ( Patu e Antje Schrupp), um livro em quadrinho muito instigante, desperta vontade de aprofundar; “Para educar crianças feministas” (Chimamanda Ngozi Adichie), minha filha, que é uma adolescente, também leu e adorou; “Gênero, Patriarcado e Violência” (Heleieth Saffiot), ótima referência do assunto no Brasil; “O segundo sexo” (Simone Beauvoir), é claro, ainda muito atual; e os dois da Judith Butler que citei antes. Mas tem muito outras literaturas feministas muito boas. Filmes que estou me lembrando agora: “As sufragistas” e “A cor púrpura”, inspirado no mesmo livro que deu origem a este filme, foi feito agora um musical.

Comentários

  1. Adorei a matéria, muito boa a entrevista! Amei as indicações que ela fez e super me interessei no livro de poemas dela (correndo para comprar rsrsrs).

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    1. Ah que bom que gostou! Depois me conta o que achou do livro

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  2. Muito boa a matéria! Adorei as indicações de obras, entraram para a lista já!

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  3. Gostei muito da entrevista e fiquei interessada em ler as obras dela, assim como os demais livros sugeridos. É muito bom que o blog esteja divulgando esta temática, sempre atual e desigual!

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    1. Ah obrigada pelos elogios! É muito importante abordar esses temas tão importantes pra nossa sociedade

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  4. Muito interessante sua matéria! Adorei o infográfico e a entrevista!

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  5. Entrevista incrível! Muito bom saber que as mulheres estão ganhando cada vez mais espaço.

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    1. Exatamente! Temos que continuar incentivando o trabalho dessas mulheres que vão contra a corrente e ajudam o movimento feminista

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  6. Parabéns pela instigante entrevista! Tenho um exemplar autografado de "Matrioskas", uma obra de escrita ágil, porém densa, com poemas que fazem pensar, pedem releitura e são de fato uma contribuição original na literatura contemporânea brasileira.

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    1. Ah que legal, Tchello! A Rubermária é uma pessoa muito interessante com uma obra muito intrigante! É importante incentivarmos artistas tão originais como ela

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  7. Amei a matéria!!!! A entrevista está incrível!

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